terça-feira, 25 de junho de 2013

MINISTÉRIO PÚBLICO PEDE BLOQUEIO DE BENS DE LULA


Por:Domingos Grilo Serrinha, Correspondente no Brasil

O Ministério Público Federal (MPF) de Brasília pediu à justiça o bloqueio dos bens do ex-presidente Lula da Silva, a quem acusa de improbidade administrativa por ter usado verba pública com claro intento de promoção pessoal.



O bloqueio de bens tem como finalidade garantir a devolução aos cofres públicos de quatro milhões de euros que Lula, segundo o MPF, usou indevidamente. A acção interposta pelo MPF refere-se ao gasto desses quatro milhões de euros com a impressão e o envio pelo correio de mais de dez milhões de cartas enviadas pela Segurança Social a reformados entre Outubro e Dezembro de 2004, segundo ano do primeiro mandato de Lula. A missiva avisava os reformados que um convénio estabelecido entre a Segurança Social e o até então desconhecido Banco BMG lhes permitia a partir de então pedirem empréstimos a juros baixos e sem qualquer burocracia àquela instituição bancária, com o desconto das parcelas sendo feito directamente nas reformas. Até aí não haveria problema, não fossem dois detalhes, que chamaram a atenção dos promotores. O BMG, único banco privado a ser autorizado na altura a realizar esse tipo de empréstimo, conseguiu a autorização em menos de duas semanas, quando o normal seriam vários meses, e as cartas, simples correspondência informativa, eram assinadas por ninguém menos que o próprio presidente da República, algo nada comum para esse tipo de aviso. Para o Ministério Público, não há dúvida de que Lula e o então ministro da Segurança Social, Amir Lando, que também assinou as cartas e é igualmente acusado na acção, usaram a correspondência para obterem promoção pessoal e lucro político e que a acção do presidente da República favoreceu a extrema rapidez com que o BMG conseguiu autorização para operar o negócio, desrespeitando as normas do mercado. A 13.ª Vara Federal, em Brasília, a quem a acção foi distribuída, ainda não se pronunciou sobre o pedido do MPF.

MITOS PEDAGÓGICOS

Beatriz Santomauro
bsantomauro@fvc.org.br
Revista Nova  Escola


Leitura pelo professor, só para quem não sabe;

"Em geral, o professor lê para as turmas até a 2ª ou 3ª série. Para os mais velhos, pensa: se eles já sabem ler, não precisam mais de mim", exemplifica Cristiane Pelissari, selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10. Na verdade, a atividade é importante sempre e em todas as idades. "Ao ler, o professor apresenta o material e o recomenda. Isso explicita quais os critérios de apreciação utilizados, oferecendo referências a respeito deles", esclarece Kátia Bräkling. 

Lê antes, ganha livro depois; 

Por muito tempo, acreditou-se que o contato com os livros deveria acontecer quando a criança já tivesse o domínio da leitura. "Se não sabe ler, não vai entender nem aproveitar o livro. Mas, se aprender, ganha um título como prêmio", dizia-se. Hoje, no entanto, sabe-se que é com o contato com textos que o aluno estabelece as relações que podem desenvolver comportamentos leitores e ajudar os estudantes a compreender a sua função comunicativa. 

Fala errado, escreve mal;


É certo que o conhecimento linguístico e a competência escritora causam um impacto na fala. Mas a relação entre ambas as habilidades não é tão estreita assim a ponto de se afirmar que quem fala mal escreve com dificuldade. Como a escrita não é a transcrição da fala, para produzir bons textos é preciso praticar, conhecer e se apropriar dela.

domingo, 23 de junho de 2013

PROTESTOS TÊM CONFUSÃO EM BH, RIO E SALVADOR; EM SP, 35 MIL VÃO ÀS RUAS

PROTESTOS TÊM CONFUSÃO EM BH, RIO E SALVADOR; EM SP, 35 MIL VÃO ÀS RUAS

Diversas cidades brasileiras tiveram mais um dia de manifestações neste sábado

Atualizado: 22/06/2013 22:46 | Por O Estado de S.Paulo, estadao.com.br

          Manifestantes e policiais entraram em confronto neste sábado, 22, em Belo Horizonte, perto do Estádio do Mineirão, onde se realizava o jogo entre Japão e México. Segundo a PM, a manifestação reuniu cerca de 100 mil pessoas - pelo menos 8 ficaram feridas. Também ocorreu confronto em Salvador, perto da Arena Fonte Nova, onde o Brasil jogava com a Itália. No Rio de Janeiro, 30 foram presos em Bangu, zona oeste da capital fluminense, sob acusação de praticar saques em lojas do bairro no fim de uma manifestação que reuniu cerca de 500 pessoas. Em São Paulo, 35 mil pessoas protestaram, de forma pacífica, contra a PEC 37.
          Belo Horizonte e Salvador voltaram a registrar confrontos no fim da tarde e noite de sábado. Na capital baiana, houve menos tumulto do que o registrado na quinta-feira, mas o centro e a região do Iguatemi ficaram com um rastro de destruição. Pelo menos três pessoas ficaram feridas e outras seis foram detidas durante os protestos, entre eles um jornalista.
          Na capital mineira, parte dos integrantes que participou do protesto no Mineirão voltou para o ponto de concentração, na Praça Sete de Setembro. A PM voltou a atirar bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo para dispersar as pessoas. A corporação chegou a utilizar o chamado caveirão, veículo blindado.
PEC 37.
          Em São Paulo, o ato foi convocado também por integrantes dos Ministérios Públicos Federal e do Estado, mas ganhou corpo no Facebook, chamado por organizações que têm forte militância na internet contra a corrupção, como o Dia do Basta, Unidos por um País Melhor (UPPM), Organização de Combate a Corrupção (OCC) e Pátria Minha. O Movimento Passe Livre não participou do evento.
            O perfil dos manifestantes era diferente dos perfis de todas as outras manifestações na capital paulista. Foram às ruas sobretudo integrantes da classe média tradicional, representada em sua maioria por jovens brancos, de 20 a 30 anos.
          O Rio de Janeiro teve protestos nas regiões sul e oeste. Em Bangu, houve tumulto e correria. De acordo com a polícia, alguns manifestantes tentaram fechar ruas do bairro com barricadas de fogo. Um grupo de jovens passou a madrugada de sábado acampado na Avenida Delfim Moreira, na orla do Leblon, na zona sul do Rio, perto do edifício onde mora o governador Sérgio Cabral (PMDB), na quadra da praia da Rua Aristides Espínola. Na pauta do protesto, melhorias em saúde e educação, crítica aos altos investimentos nas obras para a Copa e a defesa de uma CPI do transporte público. 
          O movimento "Ocupe Delfim Moreira" começou na noite de sexta-feira e promete mobilização até amanhã de domingo. Copacabana. Já em Copacabana, o movimento Rio de Paz fez manifestação para reivindicar investimentos em saúde, educação e segurança pública, no que classificaram como "padrão Fifa", em referência aos altos investimentos com os grandes eventos como a Copa.

sábado, 22 de junho de 2013

AS CONTRIBUIÇÕES DE PIAGET E VYGOSTSKY

 AS CONTRIBUIÇÕES DE PIAGET E VYGOSTSKY


Beatriz Santomauro
bsantomauro@fvc.org.br
Revista Nova  Escola


          Essas ideias ganharam suporte das pesquisas que têm em comum as concepções de aprendizagem socioconstrutivistas, que consideram o conhecimento como sendo elaborado pelo sujeito, e não só transmitido pelo mestre. Entre os principais pensadores estão Lev Vygostsky (1896-1934) - que mostrou a importância da interação social e das trocas de saberes entre as crianças - e Jean Piaget (1896-1980) - pai da teoria construtivista. 
          Nos anos 1980, Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, autoras do livro Psicogênese da Língua Escrita, apresentaram resultados de suas pesquisas sobre a alfabetização, mostrando que o aluno constrói hipóteses sobre a escrita e também aprende ao reorganizar os dados que têm em sua mente. Em seguida, as pesquisas de didática da leitura e escrita produziram conhecimentos sobre o ensino e a aprendizagem desses conteúdos.
          Hoje, a tendência propõe que certas atividades sejam feitas diariamente com os alunos de todos os anos para desenvolver habilidades leitoras e escritoras. Entre elas, estão a leitura e escrita feita pelos próprios estudantes e pelo professor para a turma (enquanto eles não compreendem o sistema de escrita), as práticas de comunicação oral para aprender os gêneros do discurso e as atividades de análise e reflexão sobre a língua.
          A leitura, coletiva e individualmente, em voz alta ou baixa, precisa fazer parte do cotidiano na sala. "O mesmo acontece com a escrita, no convívio com diferentes gêneros e propostas diretivas do professor. O propósito maior deve ser ver a linguagem como uma interação", explica Francisca Maciel, diretora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), em Belo Horizonte. 
          O desenvolvimento da linguagem oral, por sua vez, apesar de ainda pouco priorizado na escola, precisa ser trabalhado com exposições sobre um conteúdo, debates e argumentações, explanação sobre um tema lido ou leituras de poesias. "O importante é oferecer oportunidades de fala, mostrando a adequação da língua a cada situação social de comunicação oral". 
          Por esse entendimento da leitura, da escrita e da oralidade, mudam os objetivos da Educação. "Considerar que o objeto de ensino se constrói tomando como referência as práticas de leitura e escrita supõe determinar um lugar importante para o que os leitores e escritores fazem, supõe conceber como conteúdos fundamentais do ensino os comportamentos do leitor, os comportamentos do escritor", diz Delia Lerner no livro Ler e Escrever na Escola, O Real, o Possível e o Necessário.
          Para que a aprendizagem seja efetiva, a intenção do educador deve ser a de extrapolar as situações de escrita puramente escolares e remeter às práticas sociais. Dessa forma, possibilita-se aos alunos o contato com gêneros que existem na vida real - e não propor a elaboração de redações escolares sem contexto. "A proficiência do aluno requer a aprendizagem não apenas dos conteúdos gramaticais mas também dos discursivos", diz Kátia.





CONCEPÇÕES DE LINGUAGEM ALTERAM MODO DE ENSINAR

CONCEPÇÕES DE LINGUAGEM ALTERAM MODO DE ENSINAR 

Beatriz Santomauro
bsantomauro@fvc.org.br
Revista Nova  Escola


Na década de 1970, uma nova transformação conceitual mudou as práticas escolares. A linguagem deixou de ser entendida apenas como a expressão do pensamento para ser vista também como um instrumento de comunicação, envolvendo um interlocutor e uma mensagem que precisa ser compreendida. Todos os gêneros passaram a ser vistos como importantes instrumentos de transmissão de mensagens: o aluno precisaria aprender as características de cada um deles para reproduzi-los na escrita e também para identificá-los nos textos lidos. Ainda era essencial seguir um padrão preestabelecido, e qualquer anormalidade seria um ruído. Para contemplar a perspectiva, o acervo de obras estudadas acabou ampliado, já que o formato dos textos clássicos não servia de subsídio para a escrita de cartas, por exemplo. Em pouco tempo, no entanto, as correntes acadêmicas avançaram mais. Mikhail Bakhtin (1895-1975) apresentou uma nova concepção de linguagem, a enunciativo-discursiva, que considera o discurso uma prática social e uma forma de interação - tese que vigora até hoje. A relação interpessoal, o contexto de produção dos textos, as diferentes situações de comunicação, os gêneros, a interpretação e a intenção de quem o produz passaram a ser peças-chave. A expressão não era mais vista como uma representação da realidade, mas o resultado das intenções de quem a produziu e o impacto que terá no receptor. O aluno passou a ser visto como sujeito ativo, e não um reprodutor de modelos, e atuante - em vez de ser passivo no momento de ler e escutar.

O QUE ENSINAR EM LÍNGUA PORTUGUESA

O QUE ENSINAR EM LÍNGUA PORTUGUESA

Beatriz Santomauro
bsantomauro@fvc.org.br
Revista Nova  Escola


O ENSINO ATUAL DA DISCIPLINA FOCA A PRÁTICA NO DIA A DIA E MESCLA ATIVIDADES DE FALA, LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS DESDE CEDO.


Até os anos 1970, o processo de aprendizagem da Língua Portuguesa era comparado a um foguete em dois estágios, como bem pontuam os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). O primeiro ia até a criança ser alfabetizada, aprendendo o sistema de escrita. Já o seguinte começaria quando ela tivesse o domínio básico dessa habilidade e seria convidada a produzir textos, notar as normas gramaticais e ler produções clássicas.

PRODUÇÃO E REFLEXÃO (à esq.)  Nas situações práticas da análise e construção de textos, os estudantes sistematizam regras. 
LEITURA DIÁRIA (à dir.)  Ao ler gêneros e autores diversos, a turma passa a reconhecer as características das obras


          A partir dos anos 1980, o ensino não é mais visto como uma sucessão de etapas, e sim um processo contínuo. "O aluno precisa entrar em contato com dificuldades progressivas do conteúdo. Desse modo, desenvolve competências e habilidades diferentes ao longo dos anos", diz Maria Teresa Tedesco, professora do Colégio de Aplicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). 
          As situações didáticas essenciais para o Ensino Fundamental passaram a ser: ler e ouvir a leitura do docente, escrever, produzir textos oralmente para um educador escriba (quando o aluno ainda não compreende o sistema) e fazer atividades para desenvolver a linguagem oral, além de enfrentar situações de análise e reflexão sobre a língua e a sistematização de suas características e normas. 
          Essa nova concepção apresentava inúmeras diferenças em relação a perspectivas anteriores. Desde o século 19 até meados do 20, a linguagem era tida como uma expressão do pensamento. Ler e escrever bem eram uma consequência do pensar e as propostas dos professores se baseavam na discussão sobre as características descritivas e normativas da língua. "O objeto de ensino não precisava ser a linguagem", explica Kátia Lomba Bräkling, coautora dos PCNs e professora do Instituto Superior de Educação Vera Cruz, em São Paulo.        Os primeiros anos da disciplina deveriam garantir a aprendizagem da escrita, considerada um código de transcrição da fala. Dois tipos de método de alfabetização reinaram por anos: os sintéticos e os analíticos. Os primeiros começavam da parte e iam para o todo, mostrando pequenas partes das palavras, como as letras e as sílabas, para, então, formar sentenças. Compõem o grupo os métodos alfabético, fônico e silábico.
          Já os analíticos propunham começar no sentido oposto, o que garantiria uma visão mais ampliada do aluno sobre aquilo que estava no papel, facilitando o seu entendimento. Pelo modelo, o ensino partia das frases e palavras, decompostas em sílabas ou letras. "Nesses métodos, o essencial era o treinamento da capacidade de identificar, suprimir, agregar ou comparar fonemas. Feito isso, estaria formado um leitor", explica Maria do Rosário Longo Mortatti, coordenadora do grupo de pesquisa em História do Ensino de Língua e Literatura no Brasil, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de Marília.
          Aqueles que já dominavam essa primeira etapa de aprendizagem passavam para a seguinte. Na escrita, os alunos deveriam reproduzir modelos de textos consagrados da literatura e caprichar no desenho do formato das letras. Para fazer uma leitura de qualidade, o estudante tinha como tarefa compreender o que o autor quis dizer - sem interpretar ou encontrar outros sentidos. 
          As aulas focavam os aspectos normativos e descritivos da língua e textos não literários - como o acadêmico e o jornalístico - não eram estudados. "O coloquial ou informal eram considerados inadequados para ser trabalhados em sala de aula", explica Egon de Oliveira Rangel, professor do Departamento de Linguística da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

MURICI, A CIDADE ONDE A FAMÍLIA DE RENAN CALHEIROS MANDA HÁ 30 ANOS — E CHAFURDA NOS PIORES INDICADORES SOCIAIS E ECONÔMICOS



11/05/2013
 às 15:00 \ Política & Cia 
Coluna de 



VEJA
PARADA NO TEMPO

Murici, a cidade onde a família do senador Renan Calheiros se reveza no poder, é privilegiada em verbas federais, mas boa parte da população ainda vive na miséria

Município de 27 000 habitantes situado a 50 quilômetros de Maceió, Murici frequenta com certa assiduidade o noticiário nacional por três motivos – todos lamentáveis: inundações devastadoras, escândalos de desvio de dinheiro público e o fato de sempre ter na prefeitura, em esquema de revezamento, políticos de sobrenome Calheiros.
A família domina há mais de trinta anos (21 deles ininterruptos) a administração municipal, muito embora seu filho mais famoso, o presidente do Senado, Renan Calheiros, 57 anos, só apareça por lá em campanha ou em dia de inauguração. Chafurdado em alguns dos piores indicadores socioeconômicos do Brasil – até mesmo para os padrões alagoanos -, Murici é o resultado da velha política assistencialista, cujas raízes remontam ao coronelismo.
Um terço dos moradores não sabe ler nem escrever, 65% dependem do Bolsa Família para sobreviver e o Índice de Desenvolvimento Humano rasteja em 0,58 (numa escala que vai de 0 a 1). Uma das maiores escolas públicas muricienses, com 560 alunos, funciona em salas de chão de terra separadas por tapumes. As crianças saem uma hora mais cedo porque a escola não oferece merenda. O problema não parece ser, nesse caso, de miséria. Um processo que aponta irregularidades nas verbas de merenda na cidade já chegou ao Supremo Tribunal Federal.
O assunto que alvoroça os moradores é o destino de mais de 2000 ca­sas construídas com verba federal de 95 milhões de reais. Na teoria, seriam destinadas às famílias desalojadas na enchente de 2010, que deixou quase 10000 desabrigados e nove mortos. Na prática, não tem sido assim.


As casas estão prontas: são dois conjuntos habitacionais novinhos, o Olavo Calheiros – patriarca do clã e primeiro a fincar pé no poder, ao assumir a prefeitura, em 1980 – e o Pedro Raposo Tenório, de família aliada política dos Calheiros.
A maioria desses imóveis foi distribuída segundo critérios duvidosos, que quase sempre privilegiam os mais próximos do poder. O Ministério Público Federal determinou à prefeitura que refaça a lista de cadastrados levando em conta critérios menos clientelistas.
A desabrigada Maria Benedita Francisca da Silva, 69 anos, perdeu tudo na enchente e continua sem teto. “Passei um ano e meio morando numa barraca de lona da prefeitura. Até hoje não recebi a casa que me prometeram”, diz ela, hoje vivendo com onze familiares em um puxadinho erguido no quintal da casa da filha.
Claudivan Maurício de Souza, o Lobinho – integrante do rol dos que fazem parte do séquito oficial -, não tem motivo de queixa. Funcionário da prefeitura e notório adulador do prefeito Remi Calheiros, irmão de Renan, Lobinho já mora no conjunto Olavo Calheiros.
A escritura está em nome de sua mulher, Poliana da Silva Torres, que ainda era solteira e morava em Minas Gerais quando o Rio Mundaú transbordou e inundou Murici.
Interpelada pela reportagem de VEJA na porta da casa nova, Poliana ligou para Lobinho: “O que eu digo se perguntarem se a sua casa foi mesmo atingida pela enchente?”.
A Prefeitura é o maior cabide de empregos da cidade
A orientação dele foi responder que sim, foi. Mais tarde, ouvido por VEJA, o funcionário relativizaria o estrago: “Não perdi quase nada”, admitiu. No local em que morava, a água chegou no máximo “aos pés da cama e ao fundo de um armário velho”. Por que então entrou na lista de beneficiados? “Bom, entrou água, né?”



Com seus 1 200 funcionários, a prefeitura é o maior cabide de emprego de Murici. Quem não trabalha lá ou no pequeno comércio local depende do poder público – ou seja, da boa vontade dos Calheiros – para pôr comida na mesa.

Moradora da favela Portelinha, Veroneide da Silva, 25 anos, vive com os três filhos em um dos barracos que a prefeitura fornece. O piso é de terra e o banheiro é o mesmo rio onde ela e outras 400 famílias lavam roupa e recolhem água para cozinhar. “Não acredito mais que possa melhorar de vida”, resigna-se Veroneide.
Em seu quarto mandato, o prefeito Remi argumenta que “Murici é uma cidade com muitos problemas, mas temos resolvido muitos também”. Sobre irregularidades na entrega das casas pós-enchente, rebate em tom indignado: “Você está me contando uma novidade. Não coloquei um só nome na lista”.
A pouca disposição do prefeito para discutir sua administração contrasta com a paixão pelo Murici Futebol Clube, presenteado pela Câmara Municipal com uma mesada de 40 mil reais (repasses que Remi jura nunca terem chegado ao seu time do coração, quinto colocado no último campeonato alagoano).
Os Calheiros, eleitos para derrubar uma oligarquia dominante, criaram a sua
Renan e seu irmão deputado, Olavo, têm negócios e fazendas na região. A pujança financeira e política da família é herança do patriarca, major Olavo (a patente é simbólica), comerciante de cavalos que levava vida humilde até encontrar o caminho da prefeitura e, a partir dele, a trilha para o poder e a riqueza. Curiosamente, o major foi eleito em nome da renovação, como o homem do povo que derrotou a oligarquia dominante – para em seguida criar seu próprio clã e tudo voltar ao que era antes.

QUEM É QUEM -- Maria Benedita, desabrigada há mais de dois anos, mora de favor enquanto espera, em vão, pela casa nova (Foto: Manoel Marques)

Remi tem o sobrinho Olavo Neto como seu vice. A imprescindível Secretaria de Assistência Social, que detém o cadastro do Bolsa Família, está sob o comando de Soraya, a primeira-dama. As portas do casarão que Remi herdou do pai ficam sempre abertas (só os quartos são trancados), e pessoas humildes circulam por lá pedindo todo tipo de favor.
Acostumada ao domínio da família, acomodada aos seus métodos, temerosa de perder benefícios, a população faz o que se espera dela: vota nos Calheiros. Até porque, em época de eleição, ganhar uma nota de 50 reais ou uma cesta básica faz parte da rotina. O clã não arreda pé de Murici nem quando a lei não deixa Remi se reeleger: nessas oca­siões, o sobrinho Renan Filho, 33 anos, toma seu lugar.
“Quando uma família comanda a cidade, é muito comum que a máquina pública passe a ser usada para atender a interesses particulares”, diz o cientista político Ranulfo Paranhos.
Sobrecarregada de índices negativos, numa coisa Murici faz bonito: na obtenção de verbas federais. Desde 1996, mais de 39 milhões de reais foram aprovados por diversos ministérios para a cidade, em 114 convênios – para efeito de comparação, a vizinha União dos Palmares, que tem o dobro de habitantes, firmou 77.

  MESTRADO PROFISSIONAL CAPES aprova primeira proposta com parte do curso em EaD Projeto tem atividades presenciais e número adequado de alu...